1/22/2012

Sobre cantos


Sobre cantos


Desperto no abismo de emoções controversas, sou só um recorte, folha rasgada, um canto de página, sem linhas... nenhum símbolo marcado, só um canto, que poderia servir para algum recado... talvez nem isso, tão pequeno e imprestável.

Enquanto tudo fica no outro pedaço, eu fico lá, no chão, só vendo o movimento de ir e vir da porta, o vento me carrega, mas o vácuo me puxa de volta, assim eu fico... indo e vindo...

Vez por outra, respingos d'água escorrem madeira abaixo e penso que vou me desfragmentar... que nada, o vácuo na hora me puxa, volto aos movimentos circulares, e respingos me tocam... mas nada grave, volto à rotina, num dia que quase não termina...

Então, silencia a casa, luzes se apagam, ouve-se o ronronar do gato... o vácuo afastou-me da porta, fui brindado com a lua cheia, vinda da janela, bem no meio do corredor... vou passar a noite admirando a musa... pode ser que o poeta, ao me ver, imagine a cena e escreva... um sonho, eu sei.

Mas o que incomoda mesmo em ser canto é imaginar o todo, escrito a lápis ou a caneta preta... isto incomoda... ser a folha em branco, longe de ver o todo... também, ver pra quê, se eu não entendo?


A.Yunes

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